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Desenvolvimento das cadeias produtivas de fibras naturais em meio à crise climática é debatido em encontro mundial do setor

Organizado pelo Sindifibras e entidades privadas, evento reuniu lideranças para discutir os desafios do segmento que emprega mais de 2 milhões de brasileiros

Encontro Mundial de Fibras Naturais
11 de Junho de 2024

Entre 27 e 29 de maio, Salvador (BA) sediou a sessão conjunta dos Grupos Intergovernamentais de Fibras Naturais da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), da Organização Internacional de Fibras Naturais (International Natural Fibers Organization - INFO) e da Câmara Setorial de Fibras Naturais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil (CSFN/MAPA). O encontro teve como objetivo discutir a produção e o comércio internacional de fibras e produtos derivados de juta, sisal, coco e kenaf, bem como de culturas com aplicação semelhante.

Em contraste com materiais sintéticos e combustíveis fósseis, as fibras naturais contribuem positivamente para o desenvolvimento sustentável e para reduzir as emissões de carbono. No encontro em Salvador, os países discutiram novas aplicações para as fibras naturais, inclusive na indústria automotiva e na produção de biocombustíveis, notadamente o etanol. Nesse contexto, debateram a possibilidade de receber pagamento por serviços ambientais e acesso ao mercado de carbono.

Na reunião conjunta realizada na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), participaram membros da INFO (que representa 16 países produtores e consumidores de fibras naturais) e os delegados dos países membros (de forma presencial): Alemanha, Brasil, China, EUA, Filipinas, Holanda, Quênia e Reino Unido (de forma on line participaram representantes de Bangladesh, Sri Lanka e Tanzânia). Também compareceram representantes da The London Sisal Association (que reúne 12 países consumidores de fibras naturais da Europa) e da Discover Natural Fibers Initiative (reúne 14 países), além de representantes do Brasil (Paraná, DF, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Pará e Amazonas) e de 22 membros da CSFN/MAPA.

O encontro em Salvador foi organizado pelo Sindicato das Indústrias de Fibras Vegetais no Estado da Bahia (Sindifibras/Fieb) e pelas demais entidades privadas ligadas ao setor que cuidam da cadeia de fibras naturais do Brasil (sisal, juta, malva, coco, piaçava, bambu, seda e cânhamo).  Esses grupos de fibras naturais da FAO - o mais importante fórum de debates e formulação de políticas públicas para as fibras - são formados pelos principais países que produzem e consomem fibras naturais como juta, abacá, coco, kenaf e sisal – conhecidas como JACKS.

Eleito presidente dos Grupos Intergovernamentais de Fibras Naturais da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Wilson Andrade ficou no cargo por dois anos. Também presidente da INFO, da CSFN/MAPA e do Sindifibras, Andrade afirmou que o setor está recuperando parte do mercado perdido para a indústria das fibras sintéticas.

“Estamos buscando novas oportunidades para nossas fibras naturais e as notícias são positivas. Pela primeira vez, depois de muito tempo, temos expectativa de crescermos ao menos 1.2% ao ano, nos próximos anos. A integração com outros países pode gerar cooperação para novas utilizações das fibras. Esperamos que estudos e projetos contribuam para a integração de mercado e oportunidades de acesso às compensações ambientais. É interessante que esse encontro aconteça aqui para que possamos mostrar ao mundo nossas vantagens competitivas, pois vivemos uma janela de investimentos que pode ser de grande proveito para a agregação de valor. Estamos juntos com o Sindifibras para superar os desafios”, pontuou.

Wilson Andrade informa ainda as resoluções definidas no final do encontro: “os resultados são muito positivos, com o compromisso dos países participantes em avançarem na cooperação tanto na compensação ambiental e crédito de carbono, quanto para o desenvolvimento de novos produtos aproveitando 100% das plantas. Ficou definido também o reforço de pessoal e orçamento para o Laboratório da INFO na China, país que receberá a próxima reunião dos grupos da FAO em 2026. Até lá, esses grupos continuarão atentos ao que foi decidido no nosso encontro em Salvador, por meio de reuniões paralelas”.

Depoimentos - A abertura do encontro (27/05) contou com a presença de representantes das instituições parceiras e do poder público.

Em depoimento enviado aos participantes, o Diretor-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Qu Dongyu, ressaltou que as fibras naturais como juta, abacá, coco, kenaf e sisal – conhecidas como JACKS movimentam uma economia estimada em U$ 60 milhões de dólares por ano, contribuindo para a geração e renda e a segurança alimentar, além do empoderamento de mulheres rurais, amplamente envolvidas com a produção em todo o mundo.  “As fibras ainda são eco amistosas e têm sido utilizadas de formas inovadoras. Precisamos ampliar esta escala. A tecnologia e a inovação devem estar no centro das soluções para superar os desafios dessas cadeias”, pontuou.

O diretor-executivo de Governança e Gestão da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Alderi Araújo, ressaltou que as fibras naturais já nascem com a marca da sustentabilidade e que a cadeia é uma “imensa fábrica de empregos”. Só no Brasil, de acordo com ele, 850 mil pessoas dependem do sisal. “Cabe um esforço enorme no sentido de se investir em insumos biodegradáveis e na inclusão socioprodutiva de trabalhadores das regiões menos favorecidas, que ainda estão à margem do conhecimento e da tecnologia”, declarou.

Representando o secretário de Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura da Bahia, Wallison Torres, o superintendente de Política do Agronegócio, Claudemir Nonato, falou sobre a importância da utilização de pesquisas e dados já existentes na poio técnico que se pode oferecer aos produtores. “O Brasil e a Bahia precisam muito da ciência, da tecnologia e da inovação. Temos muito o que conversar e convergir para avançarmos, por exemplo, no que se refere à baixa produtividade de cadeias como a do coco e do sisal. Precisamos também atrair agroindústrias, estamos estudando que tipo de incentivos podem ajudar nisso”, assegurou.

O presidente da FIEB, Carlos Henrique Passos, destacou que Brasil é um importante player na produção de fibras naturais, sendo esta uma atividade que gera renda para regiões com pouca alternativa econômica, e que a magnitude do setor, pela sua aplicabilidade e capacidade de absorver carbono, merece mais apoio e políticas, que poderão sair como resultado do evento.

O presidente do Sistema Faeb/Senar, Humberto Miranda – também representando a CNA -, ressaltou que a melhora na produtividade das cadeias produtivas precisa acontecer para gerar mais emprego às pessoas do campo, além de gerar oportunidade de novos negócios. “Temos o exemplo do algodão, que é da melhor qualidade. Então, precisamos fazer um investimento de apoio para que a região do sisal cresça em produtividade. Hoje, apenas de 5% a 7% da produção se aproveita. Precisamos cuidar dessa cultura”, disse.

Atividades - Em 29/05 ocorreu a discussão sobre “Mudanças Climáticas e Aplicações Avançadas de Fibras Naturais”, que contou com os especialistas da Embrapa que falaram sobre as vantagens ambientais, potencial de monetização do carbono e pagamentos por serviços ambientais a partir do sisal (Gilvan Ferreira) e coco (Emiliano Costa); de Débora Meyer, da Companhia Têxtil de Castanhal que abordou essas vantagens a partir da juta brasileira; do pesquisador da Unicamp, Gonçalo Guimarães Pereira, que falou sobre etanol e outros bioprodutos feitos a partir do agave; do responsável pelo projeto da Volkswagen/Unesp para aproveitamento de resíduos de sisal e da fibra para produção de compósitos para a indústria automotiva, Alcides Leão/Unesp; do diretor de tecnologia do Cimatec, André Oliveira, que apresentou o desenvolvimento do semiárido por meio do uso de novas tecnologias e aproveitamento de plantas locais; e do consultor Danilo Hansen Guimarães que falou do aproveitamento da casca do coco verde com nanotecnologia da fibra do coco e da economia social circular. O consultor é da empresa Green Coco Europa que está em implantação na Bahia.

Como programação extra, os participantes fizeram uma visita técnica na região produtora de sisal no município de Conceição do Coité/BA com o apoio da Prefeitura Municipal de Conceição do Coité.

O evento contou com apoio do Governo do Estado da Bahia (Flem, SDE, Seagri e Setur), da Prefeitura Municipal de Conceição do Coité e de entidade empresariais locais como Sindicato das Indústrias de Fibras Vegetais no Estado da Bahia (Sindifibras), Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (FAEB) e Federação das Indústrias da Bahia (FIEB). Também conta com o apoio nacional da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT).

Apoio:

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